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A chocante degradação do turismo internacional

Atividade explode e supera recordes pré-pandemia – de receitas e poluição. Como as viagens, que evocam trocas culturais e experiências compartilhadas tornam-se esnobes, estéreis e segregadoras ? Há alternativas. Poderão tornar-se reais ? - Tradução para o português brasileiro do artigo de Bernard Duterme publicado no jornal Le Monde por Antonio Martins - Outras Palavras.

A chocante degradação do turismo internacional

Mais do que nunca, o mundo está à disposição. À disposição daquela minoria da humanidade — entre 6 e 9% da população mundial — financeira, cultural e politicamente com poderes para visitá-lo. Ou melhor, para passar lá “suas férias”, aqueles momentos “bem merecidos” de relaxamento ou entretenimento. Uma, duas, três vezes, ou até mais, por ano. Nunca antes na história foram registradas tantas viagens de lazer ao exterior em doze meses. Nunca antes na história essa dinâmica gerou tanto dinheiro quanto em 2025, nem produziu tanta receita.

Os comunicados de imprensa eufóricos do Escritório das Nações Unidas para o Turismo e do Conselho Mundial de Viagens e Turismo, a principal organização, que representa mais de 200 das maiores operadoras de turismo privadas, são inequívocos : “O futuro é promissor”. Em 2025, o setor injetou quase US$ 12 trilhões na economia global, mais de 10% do PIB mundial. A cifra representa cerca de US$ 1 trilhão a mais do que o projetado para 2024 e aproximadamente US$ 1,5 trilhão a mais do que o recorde anterior à pandemia, em 2019.

Um poluidor como poucos

Nunca antes, dada sua escala, os seus impulsionadores e os seus motores, o turismo internacional havia poluído tanto. Apesar da sua propaganda enganosa de ambientalismo, a criação de destinos exóticos — a suposta “indústria livre de fumaça” — ocupa um lugar de destaque entre os principais poluidores. Isto deve-se ao seu crescimento contínuo — significativamente mais rápido do que o da economia global — mas também à sua pegada ambiental, que inevitavelmente também está aumentando. De acordo com um estudo sobre o assunto publicado pela revista Nature, as emissões de gases com efeito de estufa do setor, por si mesmas, crescem a uma taxa de 3,5% ao ano, mais do dobro da taxa de toda a atividade econômica mundial.

Nunca antes na história o turismo internacional alçou voo tão amplamente como em 2025, em termos de número de viagens internacionais (aproximadamente 1,5 bilhão), valor agregado e receita, e, consequentemente, em seu impacto social, cultural e socioambiental. A paralisação forçada pela pandemia não passa, agora de uma lembrança ruim. Foram necessários três anos para superá-la. E para reiniciar a máquina com vigor renovado, “sempre mais longe, sempre mais alto, sempre mais forte !”. Os desejos piedosos daquela época ficaram para trás. A ideia de reconstruir o turismo sobre bases diferentes — mais democráticas, mais equitativas, mais sustentáveis, mais respeitosas — foi apenas uma ilusão.

Contudo, ao lado da sua autocongratulação, em relação às inúmeras virtudes da sua amada indústria, a própria Organização das Nações Unidas para o Turismo afirma estar convencida da necessidade de “transformá-la”, precisamente para a tornar “universalmente acessível” e menos prejudicial para as populações e ecossistemas visitados. Infelizmente, devido à falta de políticas regulatórias verdadeiramente eficazes, as tendências predominantes apontam na direção oposta. A causa fundamental reside na lógica em que a expansão do setor continua a basear-se. Ela inclui, entre outras coisas, a concentração de lucros, a apropriação privada dos lugares turísticos, a acumulação de recursos, a exploração de ambientes naturais e culturais, a mercantilização do comportamento e a corrida desenfreada — impulsionada pela competição — para a redução de quaisquer padrões sociais, fiscais ou ambientais que um país anfitrião possa tentar impor aos investidores.

Custos e benefícios distribuídos de forma desigual

É um fato que os custos e benefícios significativos gerados pelo gigante do turismo continuam sendo distribuídos de forma muito desigual. De que outra forma podemos explicar, segundo Elcia Grandcourt, Diretora do Turismo da ONU para a África , que “de cada 100 dólares gastos por um turista em férias em um país em desenvolvimento, apenas cerca de US$ 5 permanecem na economia desse país ?” De que outra forma podemos explicar o efeito desastroso dos aumentos inflacionários em áreas “saturadas pelo turismo”, o que afeta o acesso das populações locais à moradia, eletricidade, terra e alimentos ? Um impacto inevitavelmente proporcional à disparidade de renda, mais ou menos exorbitante, entre as populações visitantes e visitadas. Finalmente, como podemos explicar, para dar apenas um exemplo, por que os campos de golfe são irrigados dia e noite em países áridos ou semiáridos, justamente onde a água é escassa para as pessoas que ali vivem ?

A transformação do turismo internacional, como se pode imaginar, depende de decisões políticas nacionais e supranacionais, guiadas pelo bem comum, pelo respeito aos recursos compartilhados e pela igualdade de acesso a eles. A responsabilidade individual por parte dos turistas é ilusória. Pois, do seu ponto de vista consensual, “viajar é viver”. É uma necessidade tanto quanto um direito, ambos legítimos. Pouco importa que o exercício desse direito à mobilidade recreativa seja reservado a uma minoria em escala global. Pouco importa que sua generalização, em suas formas atuais, seja ecologicamente impossível. Pouco importa que grande parte da população local não se beneficie dele. Ressoa a histórica declaração de um ex-presidente dos EUA : “Nosso modo de vida não é negociável”. O turismo, seja de massa ou de nicho, que satura ou exclui, tem suas razões que a responsabilidade coletiva, as desigualdades Norte-Sul e a emergência ecológica não conseguem mitigar suficientemente. Antes de nós, a pandemia. Depois de nós, o dilúvio.

Tradução : Antonio Martins

Bernard Duterme é pesquisador do Centro Tricontinental (CETRI), uma ONG e centro de pesquisa, publicação e formação sobre relações Norte-Sul e os desafios da globalização na África, Ásia e América Latina, com sede na Bélgica. Ele é autor de « A Turisticação do Mundo » (Syllepse), com publicação prevista para janeiro de 2026.


Les opinions exprimées et les arguments avancés dans cet article demeurent l'entière responsabilité de l'auteur-e et ne reflètent pas nécessairement ceux du CETRI.

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